sábado, 17 de janeiro de 2015

Da Estrada

Toda viagem vale uma vida inteira.  Por motivos óbvios; por aqueles na entrelinhas.  Eu gosto da estrada. "Melhor o caminho do que a chegada", disse-me certa vez um livro em uma de nossas longas conversas. Gosto de sentar na janela e prestar atenção em tudo lá fora. A gente só presta atenção nas coisas quando não estão ao nosso alcance.  E a estrada fica muito mais bonita quando a gente presta atenção.
Lembrei de um conto curto, daqueles que a gente nunca sabe de onde veio, daquelas "histórias que nos contam na cama antes da gente dormir":

"Ela queria viajar. E queria também ver o mar. Na primeira quinzena de Janeiro tudo ainda está em festa. Ainda tem espólios de peru e panetone na geladeira, ainda tem propaganda de natal, papai noel, felicidade,  carro do sorteio espalhados pela cidade. Mas ela não queria mais nada disso. Queria sair da frequência ...
Descendo a serra, quase nas "curvas da estrada de Santos", mas sem Roberto Carlos, ela ganhou um presente surreal
-"vc quer parar pra tirar fotos,  amor?"
- "Eu posso? ? Lógico que quero!"
E pararam no acostamento,  contrariando as leias, moral e bons costumes que ela jurou ter deixado na cidade grande, pelo menos por quatro ou cinco dias.
A sensação foi única.  Uma mistura de verde, luz, concreto,  movimento, vento, silêncio.
Contemplou aquele momento como se nada mais importasse.  Registrou também aquela passagem. Não pra mostrar pros outros,  mas pra mostrar pra ela mesma quando a sufocante quase parar seu coração.  Pra lembrar da liberdade,  do silêncio,  da contemplação. "

Cada um vê a estrada como um espelho. E ela mostra aquilo que queremos, o que não queremos,  o que somos.
Eu gosto de viajar. Gosto de estradas,  concreto,  verde, movimento.
Mas também gosto do silêncio que vem com a estrada.
  "Outra viagem, outro destino,  outra estrada. Pra onde vai?  Ninguém sabe. Nem ela sabe. Talvez não queira chegar em nenhum lugar. Ela está em busca do silêncio.  E isso basta pra uma vida inteira. "