sábado, 20 de junho de 2015

Esperança no estômago

Para dores de cabeça uma dose de droga controlada.  A gente encontra esperança em cada lugar...
Para que essa dor passe é necessário,  as vezes, trair o estômago.  Aí a preocupação deixa de ser a cabeça e passa a ser o estômago,  que aceita toda sorte de coisas só pra ver a cabeça não fundir,  não parar,  só pra não vê-la sofrer. Talvez seja carma do estômago,  daqueles escrito nas estrelas. Talvez sua função social no mundo seja acolher pra não causa dor ao outro, pra depois sentir o peso de ser Abraço, de ser cura, de ser casa. Há esperança em paracetamol,  omeprazol,  benegripe.
Há esperança também em ser casa, em ser abrigo,  em ser colo. 
Algumas pessoas são como o estômago (que me perdoem os amantes de boa e velha poesia original...mas hoje toda analogia se reflete no estômago,  mais especificamente no meu estômago. 
E é de estômago que a prosa hoje é feita. ..),

Essas pessoas tem a função de acolher corações despedaçados,  pulmões em crise,  braços e pernas cansados da carga do dia, oferecendo casa pro remédio que se escolheu tomar, pras escolhas, caminhos, decisões tomadas no susto ou pensadas com cautela. Essas pessoas tem em si o dom natural de espalhar a esperança por aí, por aqui e acolá. Elas mesmas oferecem o antídoto a toda idiotice do mundo, a toda crueldade das pessoas, a toda falta de amor. Aí,  quando a visita sai, quando a janela fecha,  quando a conversa acaba, é hora de ver refletida em si mesma toda dor do outro. E também é hora de sofrer,  sem que ninguém lhe ofereça um paracetamol. ..

Pessoas que se parecem com estômago são curingas soltos no grande jogo de baralho. A esperança que um Curinga oferece é como a luz do sol em dia frio,  que aquece,  que oferece vitamina C,  que acalma nossa loucura.
Pra onde o sol vai quando já cumpriu sua missão com a gente? Acho que vai pensar em tudo que recebeu,  em toda troca de energia.

Sol é Curinga. 
Estômago é Curinga. 
Esperança é Curinga.

E a cabeça?  A cabeça é o que precisa de esperança,  de paracetamol,  de vitamina C e de amigos pra ser tudo isso junto.

Que sorte a minha! Há esperança!

quinta-feira, 18 de junho de 2015

"...vem ver o sol..."

Ofereci uma xícara de café a mim mesma hoje. Tem feito tanto frio que as vezes penso em café na veia.  Essa semana, pela primeira vez, vi o pouco de azul que resta em São Paulo.  Tem feito tanto cinza que as vezes custo a acreditar que há outras cores por aí.  De frio em frio, de cinza em cinza a gente vai ficando cada vez mais alheio ao mundo...

Não.  Não quero isso.

Por sorte,  no meu dia de "pausa pra viver", o café é generoso, o céu mudou de cor, a inspiração resolveu aparecer. E a minha companhia é o que me resta. Não digo isso com pesar. Pelo contrário. Precisava estar comigo fora da rotina.
Poderia divagar sobre a rotina....mas já fiz isso tantas vezes que chega a beirar o clichê dos dias.

Repetições me irritam. 

Para respeitar a minha pausa,  vou falar de cores.
As pessoas têm cores. E isso não é papo de hinduista.  Pessoas coloridas são legais,  tem uma energia bacana. Mas, quem vive o cinza de todos os dias é mais interessante.  Não tem pudores,  não inventam alegrias. São cruas, assim como viver é cru.  É primitivo.  É sem rodeios.
Gosto de pessoas que reclamam do cinza, que falam de pecados, desejos loucos,  que sofrem em carne viva.  Vermelha. Sem dó.
"Perfeição demais me agita os instintos. ..".

Não é que eu não goste de céu cinza. Eu gosto. Mas a fotossíntese,  pra mim, é mais que necessária.  Coisa de melanina e vitamina C....

Conversa vai,  conversa vem, essa semana um Curinga me disse que "há beleza no céu cinzento. "
Confesso que, até então,  só pensava no cinza das pessoas. Mas, ao acreditar em suas sábias e lendárias palavras,  pude constatar o óbvio: a  ausência do colorido tem lá sua beleza. Me leva a acreditar. Me leva a esperar o sol.

Pessoas cinzas também se encaixam nessa questão.  Me dão o chão pra poder tentar alcançar o céu.

Ando cinza. Ando com o pé no chão,  ando na tentativa do salto da cama elástica.  Mas tenho fé: no sol, no céu,  no café,  no azul. "Tenho fé na força do silêncio" que há em mim, no que eu não digo, no que eu finjo não sentir,  na dor que as vezes dói doída.  Na espera.

O café acabou e acabou também minha breve estadia na cafeteria.  Vou sair agora ver o sol, fazer fotossíntese,  ver o azul...
É nesse momento que o cinza e o azul se encontram, se atraem, se misturam. E os dois ficam com pouco de cada um....dilui-se a dor,  esquenta o corpo, esfria a cabeça.