domingo, 14 de agosto de 2016

Do amor e suas definições

Do amor livre eu quero a real liberdade.
Tão clichê tornou-se o amor livre...
Quer um amor livre, mas mantém a porta fechada pra não deixar ninguém entrar. E força o outro a deixar a dele fechada, com medo de perder o lugar cativo na mesa do jantar. Sentar na ponta da mesa traz a sensação de domínio - de um lar que não é  seu, da prataria que não é sua, do coração que não é  seu.

Porta fechada não entra vento. Nem sol.
Com a porta fechada não se sabe se faz calor ou frio la fora. Se é dia ou noite. Não se sabe quem passa na rua.

Não adianta "cuidar do Jardim, regar as flores e esperar as borboletas" quando a porta de entrada está fechada.
O amor livre mantém porta aberta porque, na verdade, cada um tem seu lugar na mesa de jantar. Mas todos são convidados, não somos da casa.

Cada um tem seu Castelo pra cuidar, ainda que seja um casebre. Mas é individual, intransferível. Se hoje ocupas um lugar na mesa de jantar de alguém é porque tornou-se especial, de alguma maneira. Mas, não significa que deva ser a única pessoa a sentar naquela mesa além do dono da casa.

Casa é movimento. Casa precisa de vida, de passos durante o dia e na madrugada. E jantar a dois nem sempre é tão bom assim.

Amor é deixar a porta aberta e respirar. E sentir todas as estações do ano. E sentir o sol batendo, a noite chegando, a madrugada presente. É ver a claridade do dia, a escuridão da noite. As silhuetas que passam no portão e acenar pra elas.

Amar é contemplar. É silêncio ancestral. É estar presente sem exigir que o outro sinta a sua presença.  O amor é sentir, e o sentir é egoísta. Ninguém sente igual. Ninguém sonha igual. Ser igual não é amor.

Peça licença, entre na casa, sente-se à mesa, tome o seu lugar, agradeça o convite  e contemple. E lembre-se que vc é o convidado.
Não foi vc que abriu a porta.
Não é vc que vai fecha-la.

domingo, 7 de agosto de 2016

O substantivo sujeito na porta do Panteão

Isso tudo aqui poderia começar com a história de dois universos que se encontram num banco de um lugar comum e ali descobrem o mais belo e cruel dos sentimentos - o amor. Poderia também começar com uma caixa de papeis guardada no fundo do armário e, quando aberta, traz não apenas a nostalgia de todas as horas vividas naquela época de sonhos, mas também deixa em evidência o mesmo amor doce e rude que agora distorce os dias de um único universo. Ou também poderia explicar um sonho (im)possível de ser alcançado quando se está observando o desejo de longe, sem poder tocá-lo, com toda clareza e frieza que o amor por ele traz. Vários universos esperando o momento de alcançar o impossível; de reviver um passado-presente doce e amargo; de chegar ao topo da montanha mais alta e perceber a grandeza da conquista.

3 universos. 3 possibilidades. 3 desejos derramados no Panteão dos sonhos mais profundos.


O número três tem lá sua importância na dinâmica da história. Infinito e perfeição dançam juntos na grande roda do Universo que rege os universos dentro de nós. Para mim, três Curingas se equilibram na corda bamba do devir, do amor - transfigurado cada um à sua maneira, com sua importância, com as alegrias e os desalentos de viver num mundo cheio de iguais e diferentes ao mesmo tempo. E o tempo é o que resta para viver enquanto nada acontece.


O banco daquele lugar comum viu, no dia 08/08 o desejo, antes longe do platônico, acontecer. Era noite de estrelas. Era prosa em meio ao caos. Poesia em forma de duas pessoas, de dois olhares que se reconheceram no meio da multidão. O gesto, o toque, o abraço, a fala, o silêncio. E o Universo viu que era bom!


A menina procurava naquela caixa um texto que lembrou de um autor qualquer. Aquele quarto já não era mais dela. Naquela casa ela já era visita. Mas a caixa ainda lhe pertencia, assim como tudo que havia nela. Ao encontrar um papel com uma dedicatória, lembrou instantaneamente daquele sorriso e dos olhos de enigma. Foi sua aproximação daquela platônica figura que, a partir daquele instante, faria morada em coração, dispensando toda possibilidade do não.


Aquele sonho que teve a noite passada não foi à toa. queria chegar ao topo de sua realização, nem que pra isso sacrificasse noites de sono, dias de sol, viagens para praia. Agarrou a incerteza como quem agarra o outro num abraço profundo, daqueles que, se o tempo permitir, ninguém nunca solta. Só a possibilidade de conseguir já lhe garantia uma felicidade imensa, sem explicação, sem hora pra acabar.


Três substantivos sujeitos na porta do Panteão, buscando o amor, buscando com amor, sem mesmo saber se alguma divindade abriria a porta. Sem saber ao certo o que havia lá dentro. Sem saber se haveria tempo para esperar.


O tempo....ah, esse tempo que não passa! Esse tempo que voa! Esse tempo que não volta! 


Mais um 08/08 se repete. Ela já não está mais no banco, e ele ainda sente o cheiro, o toque, o doce amor daquela noite se transformar em amargo por um momento. O tempo passou, as estações foram e voltaram e, vez ou outra, principalmente no oitavo dia do oitavo mês, ele volta à porta para ver se, de repente, por azar ou sorte, ou por alinhamento dos astros alguém abriu a porta.O amargo e o doce se transformam em seus pensamentos. Ele sorri, acena e se vai, mais uma vez, como quem diz "em breve retorno à esse porta! Até logo menos!".


Mais uma caixa se abre, e ela não consegue esconder todo aquele sentimento. Não há mais nenhum papel com dedicatória dentro da caixa, mas ela ainda se lembra daquele momento. A caixa tornou-se o barco que a conduz ao Panteão. A porta está fechada, e o tempo não passou para que pudesse esquecer tudo aquilo.


O sonho se realizou? quem sabe? Talvez tenha conseguido abraçar a vida, encaixar seu desejo na dança do Universo. Ou talvez o sonho já mudou de roupa, e a porta do Panteão continua fechada, mas o tempo se encarregou de trazer a vontade de viver aquele abraço demorado pela primeira vez...ou outra vez...


Sempre quando penso em esquecer, os dois universos no banco, a menina da caixa, aquele que almeja o topo - os três vêm me saudar...e lembrar que não há nada que possa apagar as pegadas de quem já esteve na porta do Panteão...e que o tempo que não passa é o mesmo que voa....e, contra ele, não há quem possa. 


Sou conduzida mais uma vez pelos três até a porta do Panteão. Juntos, batemos três vezes. Nos aproximamos ainda mais da porta. Lá de dentro vem um som. Três divindades em uníssono cantam a mais doce e amarga verdade: "o amor é a lembrança. Sua sentença é lembrar, esperar, amar. É isso que te faz forte - a dor e a alegria de estar aqui..."


Dedico esse 08/08, essa caixa, esse abraço no topo da montanha à todos que esperam pelo platônico na porta do Panteão. No final das contas, todos nós temos amores platônicos, sejam eles iguais ou não.


E o tempo? Vai passar, voando ou lentamente e, no próximo ano, na próxima caixa, na próxima escalada rumo ao topo nos veremos mais uma vez, no mesmo lugar, em busca do amargo doce -  legado suave a rude de todos nós.


"quero que saibas que me lembro

queria até que pudesse me ver
és parte ainda do que me faz forte
pra ser honesto só um pouquinho infeliz
mas, tudo bem...."



"...e é de ti que não esquecerei...." (Renato Russo - Giz)