Quase seis da manhã. Ele está de olho no fogão, não pode deixar a água ferver. Isso queima o mate.
"Assim como quem ferve demasiado há de queimar seus dias..." pensou, num repentino sorriso seguido de um bocejo.
Era manhã de quarta-feira. Acostumou a acordar cedo, com galos, papaguaios, periqueitos e toda a sua trupe. Na verdade, reza a lenda que os habitantes daquele vilarejo (que ele habita a várias primaveras) não sabem ao certo se ele acorda com o galo ou se é o galo que, de supetão, lavanta pra tomar um chimarrão na companhia dele. De qualquer forma, acredita-se que ambos tem lá seus motivos para acordar aquele horário.
Acostumou a ver o nascer do sol. E esse ato ocorre em casa, na praia, sozinho, acompanhado, em qualquer situação propícia. "Ver o sol nascer deveria ser dever de todo Curinga! Não se pode deixar um espetáculo assim passar batido...." sorriu depois de pensar, pois lembrou certa vez de uma conversa com outro Curinga sobre quem aplaude o sol....não era aplausos que ele merecia, na verdade. O silêncio seria um bom companheiro nessa hora. Até poderia ter a companhia de um violão, mas era o silêncio da alma que mais fazia sentido. E de silêncios ele entende muito bem. E de solidão também.
A solidão pode parecer estranha, vazia e triste aos olhos de quem não silencia, de quem não vê o sol nascer todos os dias no limite da alma. Mas, para ele, a solidão é a melhor solução para quem tem a mente em tumulto, para quem sempre está cercado de pessoas, mas que procura Curingas para se reconhecer. Acostumou também com a solidão e com ela fez dupla, parceria, casamento. Dela tornou-se amante, amigo, velho conhecido. É na solidão que encontra Curingas imaginários, ou procura novos Curingas em pessoas conhecidas. Tem nítida atração por quem anda curingando por aí, perambulando pelas esquinas da vida. Curinga-se todos os dias, pois a normalidade das cartas e dos dias ofusca sua capacidade de "tirar leite de pedra", de encontrar o "ruidoso sarau entre os festejos.".
"Ás de copas não vira curinga...." , e é difícil se reconhecer em outras cartas, em outras vidas.
E, por falar em vida.....a correria consumista/ trabalhista/ neo-contemporânea-social tem impedido sua criatividade. "Era mais legal quando ganhava pouco e tinha muito tempo pra ser, e não apenas sobreviver..".
Como num jogo de cartas, as personagens da sua vida tomam forma e proporção, e ele consegue inserí-las em categorias específicas, um treco super científico esse. Não é egoísmo, narcisismo ou coisa do gênero. Pelo contrário. Aprendeu a amar cada ser com suas individualidades, particuparidades, singularidades. Cada um tem pra dar aquilo que pode. E ter amigos de todos os tipos tem lá suas vantagens. As vezes ele precisa sair da frequencia, respirar novos ares, discutir coisas diferentes.
Mas, é o Curinga que o encanta.
Reza a lenda que ele, por ser um Curinga, perambula por aí, e não se sabe se procura outros Curingas, se procura o sentido das coisas, se procura a si mesmo. Acostumou a perder-se em sorrisos, em palavras, em olhares. E pedala pensando nisso tudo, em "palavras que começam com a letra M", em paradigmas, enigmas, esfinges, pão com carne, verdades do universo, prestações a serem pagas, Raul Seixas....
Pedala pra lembrar e esquecer.
A bicicleta é velha amiga. Encontrou, com outro Curinga, um sentido real para pedalar; Vão descer a serra de bicicleta um dia desses. Não desce a serra com qualquer carta. Mas essa carta é especial. E faz todo sentido pra ele a carta, a bicicleta, a natureza, o percurso, o encontrar-se. E, são nesses momentos que ele se encontra. Que o silêncio faz sentido. Que o chimarrão tem gosto de liberdade. Que o sol nasce dentro dele.
Ultimo dia do ano. O que ele está fazendo agora?
Não se sabe. Reza a lenda que ele está deitado na rede, com um bom livro, curtindo um bom Dia do Curinga. Outros dirão que está pedalando por aí, perambulando pelas esquinas, trilhas, ruas, labirintos. Outros ainda tem a certeza de que ele está em frente ao fogão, esperando as primeiras bolhas na chaleira e cuidando pra água não ferver.
Não se sabe ao certo.
Mas, também de que vale essa certeza toda?
A pureza está em procurá-lo no Curinga que todos nós somos.
A lenda faz sentido assim.
E o Às de copas começa sua jornada em busca de seu Curinga.
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